O alinhamento diametral

“Se eu não gosto de você, tudo que você é, vou me esforçar para não ser, e tudo que você não é, eu serei.” – Parece que esse pensamento rodeia as mentes inconscientes sem ser percebido, e vamos vendo no mundo tantos opostos desnecessários. Os exemplos são muitos e muito contraditórios, incoerentes, incongruentes. Alguns são porque seu grupo não tem força de fundamentos e aparentemente o único desejo é fazer oposição, já outros parece ser por falta de personalidade. Vejamos alguns:
O homossexual de esquerda:
De um certo ponto de vista dá para entender essa união de homossexualidade e comunismo, mas só porque está nas bases do socialismo a destruição dos valores “burgueses”, valores que esses associam com os valores cristãos tradicionais. Mas, ao contrário, os países mais abertos a essa questão são os liberais e, no mesmo sentido, os que proporcionam e proporcionaram menos liberdade não só, mas também nessa questão da sexualidade, são e foram os países que tem e tiveram uma política de esquerda (exceto, é claro, os países islâmicos). O baluarte dessa contradição, o senhor Jean Wyllys, que consegue, na suposta luta contra a suposta homofobia, travestir-se de Che Guevara, que era não pouco homofóbico, a ponto de matar uma pessoa só por ser gay.
Claro que essa oposição ocorre porque os que mais ferrenhamente combatem o socialismo são os conservadores, que também, obviamente, são os maiores defensores da família e, por algumas vezes, não são muito abertos à liberdade de escolha alheia e se consideram os defensores da moral e dos bons costumes, estando assim acima e separado de todos.
A questão dos protestantes:
Quanto a esses dá para escrever um livro. São inumeráveis oposições que fazem à doutrina católica que, se for pensar bem, elas só existem mesmo por serem oposições. O mais clichê de todos é dizer que os católicos são adoradores de imagens e, para não serem nada errados, não colocam em suas igrejas imagem alguma a não ser de alguma paisagem da natureza. A fim de imputar aos católicos uma falha grave e se acharem certos, abrem mão da memória, de homenagens e, por incrível que pareça, da arte. Seus templos são incrivelmente sem graça.
Outra questão é a dos livros da Bíblia. Isso só se consegue com muito esforço para ser irracional. Chegam a dizer que os católicos acrescentaram mais livros no Livro Sagrado, quando foi a Igreja Católica que fez a Bíblia no século IV, e mesmo contendo, na tradução de Lutero, os livros que sem saber porque chegam a chamar de apócrifos.
Essas são as duas oposições mais evidentes. No mais, aceito, conclusão de que cheguei na leitura de Dom Bosco, que o protestantismo é um castigo permitido por Deus pelos pecados da Igreja.
A tolerância exagerada a ofensas:
Graças aos absurdamente intolerantes islâmicos, somos forçados a crer que devemos ser tolerantes à ofensas, sobretudo religiosas. O Charlie Hebdo bateu recordes de desrespeito às religiões, seguidos pelo porta dos fundos, e tudo em nome de uma suposta liberdade de expressão. Posso dar a isso uma razão espiritual, que é aquela anunciada por Jesus de que os cristãos seriam perseguidos, mas também creio que os cristãos tem sido demasiadamente mansos e permitido essa confusão de conceitos, como se a liberdade de expressão desse direito a ofender. Sobre isso tenho crônica publicada de nome “Libertinagem de Expressão”.
Para ser breve, o pensamento inconsciente é esse: ser intolerante é errado, então devemos ser tolerantes e suportar a liberdade de expressão dos outros.
Por último, os conservadores e além:
Esses são fáceis de cair nas presas do oposicionismo, porque, como pensam na conservação dos valores, acabam por esquecer que alguns não são absolutos nem imutáveis, e que existe sim certa razão em um limitado relativismo, como também não aceitamo próprio desconhecimento acerca da real essência de alguns valores.
Sabendo muito bem que os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos, não fazem muito esforço para pensar que algumas mudanças valorativas são reais e naturais pelo desenvolver cultural. Hoje é inaceitável pensar que a homossexualidade é diabólica, e fomos forçados a crer que o Glorioso Apóstolo São Paulo escreveu não era lá bem o que Deus pensa, até porque não pode pensar, porque não é verdade, não é real, mas que é resultado de sua cultura, do seu tempo. Mas, em outros assuntos, ainda são muito fechados a enxergar mudanças reais e verdadeiras.
Os conservadores têm de tomar muito cuidado, até porque os mais criticados por Jesus na Bíblia eram os fariseus, que eram de costume muito parecido. A propósito dos sepulcros caiados, é interessante que para aliviar a carga de serem tão aficionados pela manutenção de bons costumes, os conservadores tem uma válvula de escape e geralmente guardam algum comportamento totalmente inapropriado, seja público ou secreto. De tanto condenar pecados, acabam por escolher um mortal para cometer sem pesar a consciência.
Falando em pecados, em termos de Igreja Católica, um pensamento parece não entrar na cabeça dos conservadores: é que a Igreja cada vez mais se santifica e muda. Muda no que pode e deve ser mudado e guarda o que não pode e não deve ser mudado. Por soberba e preconceito acabam não aceitando qualquer tipo de mudança, a não ser que seja retroativa.
Em termos gerais:
É bom se fazer determinado esforço para alcançar um pensamento crítico – no sentido verdadeiro de crítica, que é separar o bom do mau –, e ver que, muitas vezes, o “adversário” tem razão, ou mesmo não está errado. Digo adversário porque, em termos de vaidade humana, quem não é do mesmo grupo, quem não é igual, acaba sendo o adversário. O mau costume dos filósofos, de perseguirem comprovar por meio de raciocínios intermináveis a própria opinião, em vez de perseguirem com humildade e simplicidade a verdade, nos fez entrar nessa Torre de Babel.
















Je suis nazareno

Os homens poderiam pensar sobre qual o crime que tantos inocentes cometeram para merecerem o castigo do esquecimento. A humanidade deveria refletir porque a vida de alguns tem tanto valor e a morte de outros nenhuma importância. Por que essa realidade não inquieta?
A memória dos homens é seletiva, assim como a atenção, o cuidado e a fraternidade. O mundo inteiro parou quando doze jornalistas de um jornal de humor famoso morreram, e se colocaram em seu lugar. Mas, quando a questão é milhares de africanos que continuam morrendo vítima do mesmo terror islâmico, poucos são aqueles que quebram o silêncio inerte.
Nigéria não é França, e cristãos que não ofenderam a ninguém, ao contrário do costume do Charlie Hebdo, não são ricos, nem famosos, tampouco importantes do ponto de vista da sociedade. Por isso mesmo parecem ter dignidade menor, parecem ser menos merecedores de atenção e até de intervenção da política internacional.
O relativismo vem cada vez fracassando, mormente o cultural, quando nos deparamos quando uma realidade religiosa danosa e que precisa ser combatida. Não é mais tempo de pensar que o ponto de vista do outro é certo porque é a cultura dele, estamos vendo as consequências desse pensamento e elas vão ser bem piores.
Enquanto a imprensa nacional e internacional tenta convencer que o que aconteceu foram atos de loucos que não corresponde ao pensamento geral da religião, religião esta que não tem nenhum controle sobre interpretação e o que seja mais, que favorece à teocracia e que, na verdade, é mais que uma religião, mas uma organização social incompatível com a sociedade moderna, que não respeita os direitos humanos, sobretudo os das mulheres, vamos focar numa discussãozinha tola sobre liberdade de expressão e liberdade religiosa.
O mal é muito maior e há muitos mais que morrem. Sangue de cristãos é jorrado todos os dias e em quantidade muito mais sensibilizante do que a dos jornalistas-caricaturistas-humoristas do Charlie Hebdo. Mas as nossas castas são invisíveis.




Desvario hipnótico

Era uma vez um casal. Ela era Joaquina e tinha o sobrenome dele. Ele era hipnólogo, e tinha o sobrenome Fuentes. Eles se conheceram de algum modo, como acontece a todo casal, e por razões que a ciência não explica, creiam, apaixonaram-se.
Casaram-se algum tempo depois. A convivência foi ficando interessante. Todos os segredos da intimidade já revelados, todas as manias. Já tinham se acostumado um com o outro, de modo que seus defeitos perderam a vergonha e o respeito humano. A liberdade que tinham um com o outro já era plena e, talvez por isso, Fuentes resolveu abusar dela.
Cansado da tagarelice de Joaquina, resolveu ultrapassar os limites da moral dentro de casa. Certa vez, enquanto ela falava, falava e falava, cada vez com o tom de voz mais alto, ele resolveu pegar o controle remoto da televisão, apontou para ela e deu umas dedadas no botão de volume. Aconteceu o que se esperava que acontecesse, a voz dela diminuiu o tom para o que ele determinou e sua paz se estabeleceu até outra ocasião.
Fuentes abusou da liberdade e do respeito humano, diminuindo sempre o tom de voz da companheira. Já ela, insatisfeita com tudo isso, não deixou barato e, como não tinha potência, resolver irromper na permanência, na quantidade, e não parava de falar. Como resultado de todo “toma lá, da cá”, a paciência de Fuentes foi se esvaindo pouco a muito, até que desapareceu de vez.
Ultrapassando todos os limites do bom senso, e invadindo o terreno da intriga, da discórdia, da implicância, enfim, ele tentou o botão “mute”. Nada acontecia. Tentou diminuir até o volume zero e, para sua surpresa, ainda poderia escutar a sua voz imparável. Não suportava mais, estava ficando completamente louco com aquilo que provocara, até que finalmente invadiu este terreno, o da insanidade. Tapou os olhos da esposa, como fazia a todos a quem havia hipnotizado, desacordando-a e, deslizando para cima para baixo as pontas dos dedos indicador e polegar unidos sobre os lábios dela, disse em seus ouvidos: “Estou costurando sua boca. De agora em diante, você não poderá mais abri-la.”

Bateu as palmas das mãos uma só vez, para que ela acordasse e ele visse o resultado.
De fato, ela emudeceu. Mas eu me reservo a não pensar em quem matou quem no final da história.




Morro pela minha vida

O que de fato é a vida? Pouco já caminhei, pouco já pensei, e, portanto, pouco já aprendi sobre ela. Mas uma coisa eu já aprendi: aprendi a amar a vida.
Aprendi que a vida tem sentido, e esse sentido que alguns podem entender como instinto de sobrevivência, é o amor. Não há nada que nos dê mais força, mais sentido para tudo, do que viver não mais para si. Seja para uma pessoa só, seja para mais de uma, seja para a humanidade inteira, sair da caixa de espelhos nos dá força para enfrentar o mundo, enfrentar a escuridão, enfrentar o medo, enfrentar o mal.
Aprendi que a vida não é fácil, e como tudo que não é fácil, tem o sabor mais do que doce. Para viver de fato, só se pode fazê-lo com coragem. Ela não é para os covardes. Pois nela, precisamos superar e aprender com os próprios erros, descobrir e aprender a conviver ou até mesmo conseguir purificar os próprios defeitos, precisamos perdoar os erros dos outros, precisamos esquecer as tristezas do passado, precisamos reconhecer que aqueles que amamos não são ou não foram perfeitos e erraram, precisamos aprender a lutar.
Aprendi que para viver é preciso lutar, pois temos várias batalhas e vários adversários no meio do caminho. Às vezes a vida é uma batalha muito dura, às vezes não dá trégua. Às vezes não é por nossa culpa, mas às vezes temos parte nela, e podemos facilitar nossa vida nos preparando para as batalhas ou até mesmo não topando desafios para com os quais não podemos. Mas, o que não se pode mesmo é, dentro de um desafio, desistir. Se existe uma verdade é que, se por acaso andamos sozinhos, ou até mesmo, como alguns conseguem, pensamos sozinhos, na vida, não estamos sós, como ajudamos a alguém que amamos, sempre há alguém que nos ama, ou mesmo que tem um bom coração, para nos ajudar a percorrer esse caminho que às vezes tem tantas pedras. O grande motor da vida, que é o amor, nos concede a maior dádiva para vivê-la: nunca estar sozinho.
Aprendi, por fim, que somos imperfeitos e na grande parte da vida, não digo infelizmente, mas inevitavelmente, erramos. Evito a palavra infelizmente, porque às vezes uma grande felicidade vem de um erro, até um grande acerto mesmo pode vir de um erro. Por isso, devemos, é claro, sempre buscar o acerto, contudo, não devemos ter, em absoluto, nenhum medo de errar e, por conseguinte, nenhum temor de viver.



O Livro e a América



    Talhado para as grandezas,
    Pra crescer, criar, subir,
    O Novo Mundo nos músculos
    Sente a seiva do porvir.
    — Estatuário de colossos —
    Cansado doutros esboços
    Disse um dia Jeová:
    "Vai, Colombo, abre a cortina
    "Da minha eterna oficina...
    "Tira a América de lá".
    Molhado inda do dilúvio,
    Qual Tritão descomunal,
    O continente desperta
    No concerto universal.
    Dos oceanos em tropa
    Um — traz-lhe as artes da Europa,
    Outro — as bagas de Ceilão...
    E os Andes petrificados,
    Como braços levantados,
    Lhe apontam para a amplidão.
    Olhando em torno então brada:
    "Tudo marcha!... Ó grande Deus!
    As cataratas — pra terra,
    As estrelas — para os céus
    Lá, do pólo sobre as plagas,
    O seu rebanho de vagas
    Vai o mar apascentar...
    Eu quero marchar com os ventos,
    Corn os mundos... co'os
    firmamentos!!!"
    E Deus responde — "Marchar!"
    >
    "Marchar! ... Mas como?...  Da Grécia
    Nos dóricos Partenons
    A mil deuses levantando
    Mil marmóreos Panteon?...
    Marchar co'a espada de Roma
    — Leoa de ruiva coma
    De presa enorme no chão,
    Saciando o ódio profundo. . .
    — Com as garras nas mãos do mundo,
    — Com os dentes no coração?...
    "Marchar!... Mas como a Alemanha
    Na tirania feudal,
    Levantando uma montanha
    Em cada uma catedral?...
    Não!... Nem templos feitos de ossos,
    Nem gládios a cavar fossos
    São degraus do progredir...
    Lá brada César morrendo:
    "No pugilato tremendo
    "Quem sempre vence é o porvir!"
    Filhos do sec’lo das luzes!
    Filhos da Grande nação!
    Quando ante Deus vos mostrardes,
    Tereis um livro na mão:
    O livro — esse audaz guerreiro
    Que conquista o mundo inteiro
    Sem nunca ter Waterloo...
    Eólo de pensamentos,
    Que abrira a gruta dos ventos
    Donde a Igualdade vooul...
    Por uma fatalidade
    Dessas que descem de além,
    O sec'lo, que viu Colombo,
    Viu Guttenberg também.
    Quando no tosco estaleiro
    Da Alemanha o velho obreiro
    A ave da imprensa gerou...
    O Genovês salta os mares...
    Busca um ninho entre os palmares
    E a pátria da imprensa achou...
    Por isso na impaciência
    Desta sede de saber,
    Como as aves do deserto
    As almas buscam beber...
    Oh! Bendito o que semeia
    Livros... livros à mão cheia...
    E manda o povo pensar!
    O livro caindo n'alma
    É germe — que faz a palma,
    É chuva — que faz o mar.
    Vós, que o templo das idéias
    Largo — abris às multidões,
    Pra o batismo luminoso
    Das grandes revoluções,
    Agora que o trem de ferro
    Acorda o tigre no cerro
    E espanta os caboclos nus,
    Fazei desse "rei dos ventos"
    — Ginete dos pensamentos,
    — Arauto da grande luz! ...
    Bravo! a quem salva o futuro
    Fecundando a multidão! ...
    Num poema amortalhada
    Nunca morre uma nação.
    Como Goethe moribundo
    Brada "Luz!" o Novo Mundo
    Num brado de Briaréu...
    Luz! pois, no vale e na serra...
    Que, se a luz rola na terra,
    Deus colhe gênios no céu!...

    Castro Alves

A força motriz da vida

Eu, que vivo num mundo marcado por promessas e expectativas de felicidade, muito acreditei nelas. Eu, que vivo num ambiente em que as pessoas, reduzindo-se a animais, destroem-se umas as outras a fim de sobreviver, acreditando ser mais forte. Eu, que nasci e cresci em meio a erros e decepções, que necessitava do crédito dos outros para acreditar em mim, pensei em desistir. Contudo, Deus, em sua secreta liberdade, escolheu-me para ser depósito da sua força motriz.
Essa força vem primeiro pela fé. É ela que faz alguém perder o medo da derrota e parar, mesmo estando na última volta, quando o motor do carro do seu corpo ou da sua mente esquenta demais, ao invés de possivelmente pôr tudo a perder. É ela que dá a humildade suficiente de abdicar do orgulho do topo da montanha, da vitória perfeita, por saber que esta virá mais a frente, e sem riscos de desmaios. É essa fé que permite que alguém pule no abismo, para assim descobrir que tem asas, quando muitas vezes não existir outra opção.
Depois pela esperança. Por ela que se pode aguardar a luz aparecer depois da noite, porque se sabe que tudo passa. Por ela que podemos crer que as coisas podem mudar, que nós podemos mudar, que o nosso modo de ver o mundo pode mudar, e que as coisas não serão mais assim tão pesadas, tão difíceis, tão tristes e tão escuras. É, principalmente, por ela que os sonhos existem e continuam de pé, é por ela que se pode imaginar um reflexo diferente no espelho, é por ela que se pode visualizar a realização remota, distante.
E, por fim, pelo amor. É ele que move a fé e a esperança, que faz alguém se esquecer a ponto de, pelo tempo que for necessário, não viver por si, mas por aqueles a quem ama. É ele que nunca permite o desistir, é ele que dá força para continuar, para seguir, para ficar de pé. É pelo amor que a morte se torna metáfora e a vida, realidade. É ele que é capaz de perdoar os erros e as decepções que alguém carrega no peso da memória, tomar a rédea da própria vida, sabendo que é o único diretamente responsável pela própria felicidade, e deixar o passado para trás, quando, amando também a si mesmo, perdoa os próprios erros do passado e se levanta para construir um futuro melhor e cheio de bondade, apesar dos inevitáveis erros.
É dessa força que o mundo precisa, a força da fé, da esperança e do amor. Acontece que o mundo sem amor, não se preocupa em mudar; não se preocupando em melhorar, paralisa e desespera; e, quando desespera, perde a fé. Perdendo as três, perdem a alma, tornam-se pior do que animais e vivem unicamente atrás do próprio prazer e satisfação que, por infelicidade, chamam felicidade, e vão pouco a pouco se matando.



Eu, brasileiro, bipolar

Sou um brasileiro bipolar. Vivo num país que hora amo, hora odeio, hora admiro, hora repudio, e do qual hora me orgulho, hora me envergonho. Aqui temos a pacificidade que culmina na subserviência, aqui temos a insurreição que termina em demência, aqui temos o talento que finda em desperdício, aqui temos a solidariedade que acaba em comunismo.
Somos um povo pacífico, quase sem guerras. Um povo que aceita as adversidades com brandura, com mansidão, mas que ao mesmo tempo, não se rebela com a corrupção. Parecemos preferir a injustiça à confusão, ao tumulto. Isso, afirmo por mim, que grito aos quatro cantos a revolta, mas não ponho de modo algum meus pés num protesto.
Queremos ser os paladinos da moralidade e da justiça, mas nem sabemos, na verdade, como fazê-lo. Alguns dos nossos afirmam, por exemplo, que os Estados Unidos são o câncer do mundo, quando devemos a eles poder dormir sem peso na consciência, porque nos compraram por um preço mais caro do que a Alemanha na Segunda Guerra. Misturamo-nos sempre com o que há de pior. Não temos autonomia intelectual, não possuímos cultura suficiente para discernir o bem do mal, para distinguir a verdadeira linha, corrente a seguir. Outrora foi o nazi-fascismo traduzido em nacionalismo, agora é o “amor” pelos pobres reduzido a comunismo.
Nós, brasileiros, conseguimos, sem vergonha alguma, em nome da insurreição ao “império” norte-americano, nos unir com o que há de mais vergonhoso. Preferimos o BRICS, com a Rússia da homofobia e do eurasianismo, a China do comunismo, das meninas que não podem nascer, das piores lesões aos direitos humanos, e também com a Índia dos shudras. Temos a ousadia de nos unir, em temos de governo socialista, com Fidel Castro, Nicolás Maduro, Evo Morales, e a lista está só no começo. Somos verdadeiras antas.
Tão idiotas que somos, que confundimos zelo pelos pobres com socialismo. Ora, se fosse verdadeira nossa preocupação e compaixão para com os pobres, tomaríamos como pessoal a responsabilidade. Disponibilizaríamos mais postos de trabalho, partilharíamos mais do nosso precioso dinheirinho. Entretanto, somos covardes, frouxos, hipócritas, e cedemos a nossa responsabilidade ao Estado. Preferimos financiar o ócio dos pobres, dando-lhes dinheiro gratuito, do que fomentar a dignidade do trabalho e o mérito, o que resultaria no enriquecimento e melhoramento da qualidade de vida de todos, sem distinção.
Somos, por fim, um verdadeiro desperdício de talento. Um povo inteligentíssimo, que tem a incrível capacidade de se destacar em tudo a que se dedica, que joga tudo que tem no lixo e se nivela por baixo. Fazemos tudo às avessas! Quando deveríamos melhorar a educação das escolas públicas, para por os mais pobres em pé de igualdade com os ricos que sempre ocupam as vagas das universidades publicas, preferimos as cotas, preferimos rebaixar o nível da academia que deveria ser o trunfo do futuro do nosso país. Odiamos, por inveja coletiva e ressentimento social e intelectual, tudo aquilo que é mais elevado, e cortamos nossas pernas para amalgamarmo-nos aos pouco dotados. Atentamos contra a própria natureza.
Diante desse quadro vergonhoso, creio que deveriam ter, os nacionalistas do tempo do Estado Novo, sucesso ao tentar que a anta fosse o animal representativo do país. Seria totalmente coerente. Eu, por outro lado, preferia que fosse a onça pintada, mas seria muito injusto.





Sobre a igualdade

Andam dizendo por aí que somos todos iguais. Queria saber se quem diz é cego, surdo, ou o que mais. Vamos ver se isso é verdade:
Uns são belos, outros menos; uns fortes, outros menos; uns gordos, outros menos; uns são altos, outros menos; uns são competentes, outros menos; uns são virtuosos, outros menos; uns são mais dispostos, outros menos; uns tem mais reflexos, outros menos; uns tem mais pontaria, outros menos; uns tem mais destreza, outros menos; uns tem mais determinação, outros menos, uns tem mais criatividade, outros menos; uns tem mais sociabilidade, outros menos; uns tem mais inteligência, outros menos.
Outros, já reconhecendo esta verdade, querem fazer de todos iguais forçosamente, rebaixando o nível da humanidade. Se não fosse suficiente, querem usar da força do Leviatã, o Estado, para desfazer essas desigualdades, indo de encontro com a própria natureza, para favorecer uma suposta harmonia na sociedade. No final das contas, todo mundo acaba perdendo a preciosa liberdade.
A liberdade, por outro lado, deveria ser usada em benefício das diferenças, porque claro, que se ninguém é igual, todo mundo se completa. O forte deveria auxiliar o fraco, o competente servir o incapacitado, o criativo encantar o prático, o virtuoso corrigir o viciado, o mais ativo animar o mais relaxado, o resoluto liderar o mais pacato, o determinado motivar hesitante, o sociável conversar com o tímido, o belo fazer o feio enxergar a verdadeira beleza, e o inteligente honesta e humildemente ensinar o tolo.
Mas por que teria o ser humano essa liberalidade, em vez de se favorecer de sua desigualdade para estabelecer sua superioridade perante os demais? Porque, apesar de tudo isso, esse ser tão unicamente infinito tem uma essencial igualdade: são todos filhos de Deus, providos de igual e inestimável dignidade.



Porque o Brasil ama Lula

Quedei-me hoje a pensar porque o ex-presidento Luís Inácio Lula da Silva é tão amado no Brasil. Não consegui demorar tanto no raciocínio, pois verifiquei ser bem evidente que ele é a cara do Brasil, e o brasileiro acaba por amar aquilo que o caracteriza melhor. Para esclarecer meu pensamento, destacarei algumas características do molusco.
Ele é ignorante: boa parcela do Brasil tem verdadeiro asco pela cultura, de cultura aqui se entenda a qualidade daquilo que é culto, melhor dizendo, então, brasileiro detesta erudição. Quando o brasileiro não tem horror a ela, tem inveja de quem tem. Assim, acaba-se por gostar mais daquilo que é inculto, como o Lula, que é assumidamente ignorante e detesta ler.
Ele é desonesto: o cara conseguiu se safar do mensalão, e fez de conta que não sabia de nada. O que não sei se conseguirá com esse novo escândalo do novo mensalão, o da Petrobrás, o que faz dele mais um grande criminoso. Se não bastasse tudo que faz blindado e às escondidas, ele pratica diversos atos de desonestidade política, bem às claras, mas o brasileiro, idiota, não percebe. Ele roubou, por exemplo, o Bolsa Família, de FHC, transformando nesse programa compra-voto os Fome Zero, Bolsa Escola e Vale Alimentação; ele roubou também a CGU, criada no governo FHC por medida provisória com o nome de Corregedoria Geral da União e adotou como criação sua, chamando-a de Controladoria Geral da União. O pior de tudo é ter roubado o crescimento econômico brasileiro como se fosse culpa e responsabilidade dele, quando, ao contrário, hoje é que temos as consequência de seu desgoverno. Não bastasse dissecar a candidata Marina Silva em mentiras e dizer depois que a ama. Ele é o típico desonesto descarado brasileiro, que acaba sendo amado por todos.
Para verificar o pior defeito do brasileiro, que é terrivelmente hipócrita, precisaria conhecer a intimidade do molusco, o que, bendito seja Deus, não conheço, de modo que a sua figura pública já me causa nojo. Nem quero, tampouco, fazer uma análise aprofundada do assunto. Quis, na verdade, só dizer, de maneira mais elaborada, que o Brasil que ama Lula, o faz, porque ele é a cara deste Brasil, e eles se merecem.


A reforma que realmente precisamos

personalityA mente de boa parte da população brasileira está ludibriada, ilusionada por esta possibilidade de reforma política. Creem ser a solução de todos os problemas pátrios, a tranca do baú do tesouro que é o Brasil contra os piratas da corrupção. Será que já não temos bons dispositivos na lei? Ou, se são ineficazes, será que vai resolver alguma coisa?

A primeira pergunta é: Quem são os corruptos no Brasil? São os políticos? São os professores? São os policiais? São os juízes? Os advogados? Os promotores? Os médicos? Quem são os corruptos?

Na escola, são os alunos, que fazem trabalhos copiados, que colam na prova, que compram monografias. Nas ruas, são os motoristas que furam a fila de carros, que ultrapassam pelo acostamento, sempre tentando ter qualquer vantagem sobre os outros e nunca querendo ficar sujeito às mesmas dificuldades que os outros. No banco, é o cliente que fura fila, ou mesmo que dá um jeitinho de ser atendido antes, por ter algum conhecido no caixa ou funcionário do banco. Os impostos? Sonegar. O voto? Vender. E como empresário? Caixa dois.

Na verdade, corrupto é todo brasileiro. Quem é criado para ser honesto, vive nervoso, irritado, com o tanto de injustiça que vê só ao sair de casa. É chamado de ingênuo, inocente... Porque o normal, o certo, o ideal, é ser desonesto como todo mundo. E ainda tem de desconfiar de todo mundo, em viver em um estado paranoico, neurótico, esquizofrênico, onde o mundo conspira contra si. Tem de trabalhar em dobro, estudar em dobro, ter paciência em dobro, ser talentoso em dobro.

E como confrontar esses dados facilmente observáveis e definitivamente indiscutíveis com a grande maioria cristã? Isto é o pior de tudo, além de intrinsecamente corrupto, o brasileiro é incrivelmente hipócrita. É um povo inculto, invejoso e sem educação – alguém pode vir aqui me acusar de me achar melhor que o brasileiro mesmo sendo brasileiro, e digo que está certo, sou melhor sim. Fui muito bem educado por minha mãe.

Então, qual é a solução? Essa reforma política vai mudar alguma coisa? O brasileiro vai aprender a votar em gente honesta? Duvido. O Brasil é um país sem futuro e condenado a uma guerra civil que chegará em breve, caso as coisas não comecem a mudar.

A reforma que precisa ser feita não é na política, é no brasileiro. Não digo que precisamos de um dilúvio, porque não sou judeu, mas se aparecesse alguém bem intencionado que fizesse uma verdadeira revisão de todo sistema educacional sem querer saber da existência de Paulo Freire, aí as coisas podem começar a mudar. A mudança que o Brasil pode ter é daqui a pelo menos uns vinte ou trinta anos, num país dos nossos filhos e netos.

Já que isso não vai acontecer, já que o brasileiro não pensa no futuro, já que nós só queremos políticas imediatas e de resultados prontos, o país, cada vez mais em derrocada moral, tende a atingir níveis abissais. Infelizmente somos assim, gigantes pela próprio natureza e nanicos pelo próprio povo.

A inconstitucionalidade do plebiscito para assembléia constituinte derivada e a impossibilidade do poder constituinte originário derivado

Brasil 3dfoto3d.blogspot.com (3)Como brasileiro tem memória fraca, provavelmente meus caros leitores, assim como eu, não se recordavam de que esta não é a primeira vez que o governo faz uma proposta de constituinte exclusiva para reforma política. Uma proposta intrinsecamente contraditória e flagrantemente inconstitucional, que o PT vem trazendo com cada vez mais forças, só que agora com uma propaganda relâmpago e massiva de pebiscito assembleia constituinte, que leva as pessoas a dizerem “sim” sem ao menos saberem quanto absurda e golpista é esta proposta.

Em 2006, Lula consultou a OAB para enviar uma proposta de emenda constitucional propondo uma assembleia constituinte exclusiva para reforma política. Três anos mais tarde, essa proposta é apresentada pelo deputado Marco Maia, também do PT. Trata-se da PEC 384, que tinha como ementa convocar assembleia constituinte para revisar os dispositivos da Constituição Federal relativos ao regime de representação política. A última vez foi ano passado, logo depois das manifestações de junho, quando a presidente Dilma lançou a proposta, até que agora, entre os dias 1º e 7 de setembro, o terror bate novamente à porta de quem conhece um pouco de Direito e de PT.

A assembleia constituinte é de caráter revolucionário, pois ela rompe totalmente com o sistema anterior vigente e estabelece um novo. A Constituição Federal de 1988 foi assim, foi posterior ao fim do regime militar, findado em 1985, tendo a Assembleia Nacional Constituinte iniciada em 1987, resultando na bela Carta Política que temos, firmando a democracia e buscando deixar longe tudo que se passou anteriormente, principalmente garantindo os direitos fundamentais. Desse modo, a assembleia, que é revolucionária, tem amplos poderes, trata-se do poder constituinte originário, que é ilimitado, autônomo e incondicionado.

Depois disso, tem-se o poder constituinte derivado, que é decidido e limitado pelo originário. Assim aconteceu aqui no nosso ordenamento jurídico-constitucional. O legislador constituinte originário delimitou as possibilidades de reformas da Carta, de forma que num primeiro momento, o art. 3º do ADCT (Ato das Disposições Constitucionais Transitórias) previu que após cinco anos de sua promulgação, a Constituição poderia ser revisada pelo voto da maioria absoluta dos membros do congresso nacional, o que foi feito, dando assim origem às quatro primeiras emenda. Findado esse prazo foram vedadas novas revisões. Repito: foram vedadas novas previsões.

A partir disso, a Constituição não pode ser mais revisada, podendo ser tão somente reformada em seu conteúdo por meio de emendas constitucionais, aprovadas pelas duas casas do Congresso Nacional, por três quintos dos votos dos respectivos membros (art. 60, §2º, da CF). Essa é a limitação formal. Existe ainda a limitação material, quanto ao conteúdo, de forma que as emendas podem versar, desde que não tendam a abolir seu conteúdo, sobre forma federativa do Estado; sobre o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos poderes e os direitos e garantias individuais. Assim foi o entendimento do STF, quando, em 1997, decidiu que “Ao Poder Legislativo, federal ou estadual, não está aberta a via da introdução, no cenário jurídico, do instituto da Revisão Constitucional” (ADI 1.722-MC, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 10-12-98, DJ de 19-9-03).

Entretanto, em virtude do aparelhamento do Estado praticado pelo governo do PT, não se é de nada estranho que, em posterior julgamento, o Supremo Tribunal Federal venha a ter entendimento diverso e afirme ser plenamente constitucional o instituto da revisão, aprovando um plebiscito para dar origem a um “poder constituinte originário derivado”, o qual pode, sem mais nem menos, simplesmente por ser assembleia constituinte, dar a si plenos poderes e, em vez de fazer uma “simples” inconstitucional revisão da constituição a fim de reforma política, pratique um verdadeiro Golpe de Estado sem armas.

É de muito se estranhar, portanto, que o partido que tem os maiores escândalos de corrupção da história desse país, haja vista que não é somente o “mensalão”, que envia dinheiro para Cuba, que faz propaganda política para Hugo Chavez e posteriormente Nicolás Maduro, que anda de mãos dadas com ditadores, recebendo-os de braços abertos no nosso território, que permitiu o índice de homicídios alcançasse nível estarrecedor de 70 mil ao ano, que rebaixou a educação brasileira a uma das piores do mundo, que prende toda uma população mais pobre pela barriga, por meio de medidas assistencialistas totalmente eleitoreiras e, para tentar dar cabo a esta lista, instrumentaliza a própria polícia federal para destruir reputações e utiliza dos próprios computadores para fomentar informações falsas sobre adversários políticos, tenha qualquer boa intenção que seja com essa assembleia constituinte derivada.

Assembleia constituinte? O quê?

Neste mês de setembro, os partidos alinhados à esquerda e seus militantes estão preparando uma propaganda em massa para que seja realizado um plebiscito para reforma política. Desde já quero avisá-los, caros leitores, que se trata de uma armadilha. O que carece de reforma no nosso sistema político pode ser alterado por lei ou emenda constitucional. Se eles desejam fazer uma assembleia constituinte é porque querem mudar o texto inalterável da Constituição Federal, o que é flagrantemente um perigo!

A nossa Carta Magna é recente, de 1988. É uma carta política bela, inclusive muito mais avançada culturalmente do que a nação que rege, de modo que devemos, no lugar de alterá-la ou derroga-la por meio de outra, cumprir o seu texto de modo integral, o que não acontece de forma alguma. Ela contém, para quem não conhece do assunto, muitas normas de caráter programático, isto é, que estabelece um programa a ser cumprido pelo poder público, como por exemplo os constantes do artigo terceiro, que estabelece em um dos seus incisos como objetivo fundamental da República Federativa do Brasil a erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais.

Para proteger o nosso ordenamento jurídico de governantes loucos, irresponsáveis, que desejarem submeter-nos a um processo revolucionário, o legislador constitucional estabeleceu alguns dos seus dispositivos como cláusulas pétreas, ou seja, não podem ser alteradas nem por emenda constitucional. Em virtude disso, qualquer projeto que enseje nova assembleia constituinte, é porque deseja alterar a Carta Maior no seu texto inalterável. Acontece que tais normas não são imutáveis por mero arbítrio do legislador constituinte originário. Não, assim foram consideradas porque desejam proteger tais preceitos que se encontram dispostos no §4º do art. 60 da carta. Vejamos:

§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e periódico;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais.

Ora, não se vê que é de totalmente má fé qualquer proposta de assembleia constituinte? Há de se alterar a forma federativa do Estado para fazê-lo? Quem deseja alterar a forma federativa, é porque deseja centralizar o poder no governo presidencial, ou ditatorial, a fim de acabar com a divisão entre estados-membros, o que fortaleceria de modo inimaginável um futuro governante, fato que é absolutamente necessário em Estados Socialistas.

Porque há que se acabar com o voto direto, secreto, universal e periódico? Tudo que se intentar contra isto se trata de atentado à democracia, o que deve ser prontamente rechaçado. Da mesma forma, é a separação dos poderes, que limita o excesso de cada um dos lados, de modo que, como dizem os americanos, é um sistema de freios e contrapesos, garantia absoluta de um Estado Democrático de Direito. Qualquer um que atente contra a separação dos poderes, atenta contra a democracia.

Por último, todos os direitos e garantias individuais. Ressalte-se que os direitos e garantias individuais são tanto direitos positivos, de forma que o Estado deve dar o direito ao indivíduo, como em forma de direito negativo, quando o Estado deve se abster de fazer algo a fim de respeitar o cidadão. Quanto a isso não há o que se falar, porquanto trata-se uma conquista da humanidade inscrita principalmente na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, de modo que a Constituição Federal de 1988, abraçando-a, garantiu diversos direitos inalienáveis de todos os homens e mulheres desta Nação.

Está evidente, portanto, que devemos fazer uma contrapropaganda deste terrível plebiscito para que haja nova assembleia constituinte, haja vista que é toda uma nação que ignora o que é sistema político que vai votá-la. Não, não temos um mínimo de civilidade para realizar esta assembleia, o que nos leva a mais do que suspeitar, a ter plena convicção de que se trata de uma projeção comunista, que deseja sorrateiramente, e usando de termos absolutamente vagos, fazer uma revolução e derrubar o regime constitucional vigente, que, destaque-se, é excelente.

Entre no link abaixo e veja quem iniciou todo esse projeto:

http://www.plebiscitoconstituinte.org.br/noticia/o-pt-e-o-plebiscito-popular-da-constituinte











A autoalienação cristã, a falta de autocrítica e o desserviço à Igreja

censurado-proibidoAcontece em rincões espirituais muito do que acontece em lugares como a Coréia do Norte. A população de lá, fechada em seu próprio país, é alheia, alienada, quanto ao que acontece no resto do mundo. Da mesma forma, em alguns terrenos católicos, o fechamento é tão grande que alguns princípios por estes defendidos sustentam-se tão somente internamente, porque se alguém abrir um pouco os olhos quanto à ordem externa, vai entrar em sérios conflitos lógicos. Resta a dificuldade de em quem acreditar.

Alguns grupos defendem a oração, na forma parada, como condição sem a qual não se pode sobreviver, pois a pessoa, quando não reza, torna-se capaz das piores atrocidades e, pasme quem entender, qualquer maldade que a pessoa comete é só por uma razão: porque não rezou. Se alguém apontar um comportamento incongruente em tal ambiente, e reafirmando a vida de oração da pessoa, logo se é respondido que a pessoa pensa que rezou, mas de fato não rezou. Não quero aqui diminuir a importância da vida de oração, ai de mim, mas qual a importância que razão, moral, ética e livre arbítrio possuem para essas pessoas?

O resultado disso é um cristianismo utilitarista às reversas, quando, em vez de se dar prioridade para aquilo que é essencial e fundamental do comportamento cristão, dá-se importância ao extraordinário. Um personagem da Disney de lá diria assim: “Eu faço o extraordinário, somente o extraordinário, o necessário é demais”. Perde-se, assim, aquilo que se entende por virtude da religião e mais, qualquer lógica básica que se tem sobre moralidade. Eis que é importante ter horas de oração diárias além da indispensável eucaristia, mas não simplesmente amar e tudo aquilo que o amor cristão comporta.

Se o Japão, de povo tão educado, tivesse, ao contrário dos 8% de cristãos, os 84% do xintoísmo, os membros desse grupo afirmariam ser em virtude unicamente da religião. O Brasil, ao contrário, tem por volta de 86% de cristãos e é um absurdo moral. Diante desses fatos, notamos que alguma coisa aí está errada. A religião, portanto, não é o que importa aí, a vida de oração não é o que importa aí, a quantidade que se consome de eucaristia, que se crê que se consome dignamente tão somente porque crê que vive a castidade não é o que importa aí. O que importa aí é a educação.

A racionalidade, portanto, fica reduzida a nada, porque impõe questionamentos, e se torna crime ser inteligente. É o cristianismo que não precisa ser destruído por fora, porque se destrói a si mesmo por dentro e só é sustentado pelo Espírito Santo e o Cristo que é a cabeça, porque de seus adeptos não pode depender. De seus adeptos, inclusive, é o que se pode descrer, o que é confirmado pelo próprio Catecismo da Igreja Católica quando diz que “na gênese e difusão do ateísmo, ‘grande parcela da responsabilidade pode caber aos crentes, na medida em que, negligenciando a educação da fé, ou por uma exposição enganosa da doutrina, ou por deficiência em sua vida religiosa, moral e social, se poderia dizer deles que mais escondem do que manifestam o rosto autêntico de Deus e da religião’”.

Infelizmente, acabamos por nos deparar com melhores cristãos ateus do que crentes. Infelizmente ficamos com a fé diminuída em determinados movimentos, infelizmente somos enfraquecidos em nossas virtudes espirituais, por, por falta de ver, pouco crer naquilo que ela deveria ter de eficácia.

Bolsa ignorância: o analfabetismo político no Brasil e suas consequências

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Se todos os males que já possuímos fossem poucos, ainda temos o pior e mais devastador deles: o analfabetismo político. A massa da população não sabe sequer o que é política, o que é ideologia e realidade, espectro político e, ainda para tornar a situação mais estarrecedora, quando alguns pensam entender do assunto é por uma visão marxista totalmente distorcida da realidade. Tudo isso reflete na terrível qualidade dos nossos políticos.

Diante de um quadro em que pessoas de formação superior afirmam que liberalismo é quando tudo faz parte da iniciativa privada, inclusive educação, segurança e saúde, estamos diante de um quadro de analfabetismo político grave. Em um país em que, mesmo com todos os insucessos e crueldades socialistas ao redor do mundo, permitem que todos os principais candidatos à presidência da República sejam alinhados à esquerda, constata-se que quase totalidade da população é quase que totalmente alheia à realidade das coisas.

Pelo que se ensina nas escolas e ao redor do país, tornou-se senso comum, para felicidade infernal de Antonio Gramsci (quem 95% dos leitores não sabem quem é, ou acerca de quem tem uma visão ingênua), que o socialismo é a solução para todos os males brasileiros. Estamos diante da terrível situação de importar médicos de Cuba sem saber como é um hospital cubano, e olha que é ensinado pelas quatro paredes escolares que a medicina cubana é das melhores do mundo. Apagamos totalmente da nossa mente qual é a razão do verdadeiro sucesso dos países mais desenvolvidos do mundo, dentre os quais se pode citar Japão, Estados Unidos, Austrália, Canadá, Alemanha, Coréia do Sul, que, pasmem, nenhum deles é socialista, mas, ao contrário, rechaçam essa ideologia a ponto de não permitirem a entrada de palestrantes dessa utopia em seu território, como aconteceu este ano em terreno norte-americano.

É nesta situação que vivemos: a grande massa não tem nenhuma formação política e elege seu candidato por todas as razões possíveis que não são, de modo algum, analisar as possíveis consequências da vertente política do candidato, de suas promessas, de sua história política, mas, absurdamente ao contrário, vota por sua beleza, pelo seu poder, pelo que pode lhe fazer para obtenção de vantagem única e estritamente pessoal, porque fala melhor, porque é mais engraçado, enfim, por qualquer razão inaceitável.

Conjuntura que se agrava, quando nos deparamos com a realidade de que a maioria dos candidatos também se encontra nessa situação. Tanto com relação a não saber absolutamente nada sobre política quanto por ter visão totalmente alheia à realidade deturpada por pseudo-graduações e pós-graduações de humanas que fazem papel, em vez de criar profissionais e intelectuais para a construção da nação, de formar militantes e idiotas úteis para a destruição do país e propagação da ideologia que mais matou pessoas em toda a história, e que não é a nazista.

Tudo isso se torna estarrecedor, quando analisamos a combinação e a concorrência destes fatos numa visão prospectiva, isto é, enquanto analisamos o futuro para o qual o nosso país se encaminha quando pomos todos estes eventos sobre a mesa.

Existe esperança?

O espelho

Picasso-GirlMirrorCerta noite eu tive um sonho. Sonhei que morria e que logo após a morte encontrava-me diante de um espelho.

Aquele espelho era diferente de todos que já tinha visto, pois ele não refletia minha imagem, mas minha alma nua. Sim, eu tinha morrido e, sem corpo, não tinha algo material que o espelho pudesse refletir, dessa forma era eu, verdadeiramente, sem disfarce, que ali encontrava reflexão.

Fui envolvido por uma série de sentimentos. Decepção, tristeza, medo, vergonha. Tive vergonha de que alguém me visse feio como eu verdadeiramente estava, tive medo de não poder me juntar no paraíso com as almas belas, fiquei triste por achar que iria para o inferno e, enfim, fiquei decepcionado comigo mesmo, por todo tempo perdido sem perceber minha imagem mais autêntica, a interior.

Meu rosto e maquiagem já não podiam disfarçar o ódio que eu sentia, a falta de perdão. Tudo era ali muito bem representado, inclusive minhas perversões. Meu orgulho me tornava um ser fraco, e meu egoísmo raquítico. Minha alma era impressionantemente fraca.

Fui tomado por um desespero, já não conseguia ver nada de bom em mim, até que apareceu um anjo do meu lado e eu percebi que tudo era um sonho.

Felizmente acordei, e graças a esse sonho, de agora em diante, posso me prevenir de que ele se torne realidade.

A maldade do dinheiro

devil-angel-money-e1327258650523Algumas pessoas dão liberdade a objetos inanimados, atribuem maldade a coisas e perversidade a ficções jurídicas. “O dinheiro é mau”, “as armas geram violência”, “o capitalismo é maléfico”. Parece que parcela da humanidade procura, de todas as formas, fugir da responsabilidade dos próprios atos e da consequência destes.

Será que o dinheiro é mesmo mau? Se eu considerar o dinheiro como sendo algo essencialmente mau, é mesmo que eu considerar uma inteligência superior fundamentalmente má. Da mesma forma que um gênio pode usar seu potencial intelectual para o mal, um bilionário pode usar sua fortuna para o mal. Ora, um privilegiado pela sua capacidade cognitiva pode fazer um bem imenso à toda a sociedade, da mesma forma um afortunado.

Da mesma forma são as armas. Coincidentemente, os países desarmados são os mais violentos do mundo. Não é possível que as autoridades que fomentam o desarmamento tenham boas intenções, isto porque os que as usarão para delinquir não comprarão armas de forma legal, ao contrário das pessoas que usarão para a sua defesa. Pior, nesses países desarmados, a população de boa vontade ficou, numa consequência imediata, sem possibilidade de defesa, e assim, os delinquentes sentem-se sem nenhuma ameaça. E é exatamente isso que se pode concluir, a arma em si mesmo não é um mal, mas ela é um mal em potencial, assim como um bem em potencial, quando usada para impedir uma agressão injusta. Se a Polônia pudesse voltar no tempo e ser bem armada contra a Alemanha nazista, talvez o fizessem.

Da mesma forma o capitalismo. Quantas vezes não ouvi falar que o dinheiro é ruim? Em território socialista, como estão se transformando cada vez mais o brasileiro, é comum pensar que o dinheiro é a causa da criminalidade. Isso é um completo absurdo lógico, contrariado prontamente pelos mais óbvios fatos constantes em países como Nova Zelândia, Austrália, Canadá, entre outros que possuem um mercado livre.

O que não se enxerga, na verdade, é o quanto o brasileiro é mal educado e essa é a única origem do caos em que aqui se encontra. Mal educado, desonesto, corrupto. Ser uma pessoa de bem neste território infame cada vez mais gera infelicidade, e a inevitável necessidade de também ser fera sempre vem à tona. Advogados mentirosos, políticos corruptos que governam para si, médicos sem nenhum interesse na vida humana, juízes que se vendem, engenheiros preguiçosos, empresários exploradores, trabalhadores venenosos, e por aí vai.

A culpa é do dinheiro? É de quem? A culpa é dos pais!

Mania de profeta

MadnessNão existe perigo maior quando alguém confia demasiadamente num além de si mesmo, ou excessivamente em si. Ainda pior é quando excede a confiança em si mesmo pelo pressuposto do além de si. Este é o fanático religioso que subestima o uso da razão e a reflexão ética e moral em prol de uma realidade sobrenatural que, não racionalizada, não se protege diante de uma vaidade impossibilitada de ser percebida e curada, da sua imaginação ou até mesmo da sua loucura.

Quem teve a oportunidade de ler biografias de santos místicos, depara-se com muitas perseguições por eles sofridas, muitas provações, pessoas que não acreditavam que eram eles canais sobrenatural da voz de Deus e das mãos de Deus. Hoje qualquer um que se considere místico e o mundo que respeite. Deus lhes fala por meio da oração, o que obviamente é possível, só que eles não usam nenhum freio da razão, nem muito menos utilizam o sobrenatural como recurso último, diante de toda Palavra Revelada e da sabedoria da doutrina da Igreja e até mesmo do bom senso. Fala-se em nome de Deus e sobre si dá-se autoridade quase papal, quando em cada palavra do fanático tem um “ex cathedra” embutido.

Em alguns níveis, a ilusão sobrenatural sem freio alcança níveis tão pérfidos, que a pessoa não dá autoridade diretamente a si nem confia diretamente em si mesma, mas se concede a autoridade sobrenatural divina por se considerar uma pessoa iluminada, seja por essência, seja pela prática. Dificilmente considera-se iluminada por razões naturais, porque a própria família já lhe daria o freio chamando-lhe de louca (pobre da pessoa que não der ouvidos), mas acaba por se considerar em razão de uma autoridade espiritual que lhe é concedida mediante a consagração de sua vida. Quem nunca se deparou com pessoas opinando erroneamente sobre sua vida, ou metendo-se, num ato de acreditada razão profética, lançou palavras totalmente enganadas? A culpa não é de Deus.

O que acontece? Essas pessoas, talvez por uma má formação ética, moral, por um déficit de conhecimento humano ou até mesmo por incapacidade cognitiva, esquecem o freio da razão, do natural, do lícito óbvio, para declinar-se em suas elucubrações sobre a verdade das coisas, e tudo isso sem um freio racional, sem um simples questionar-se da origem real das moções que recebe e da sua correspondência com a verdade. Muitas vezes, no maior absurdo dos absurdos, confia tanto na sua autoridade sobrenatural que confronta a verdade dos fatos, interpretando ao seu “iluminado” modo, que passa por cima da realidade. Beira, se não já alcançou, a loucura. Por outro lado, e de modo mais danoso, trata-se de uma pessoa de excelente formação, de alto nível intelectual, mas que, absorto de sua vaidade, considera a si mesmo um profeta. Esse engana a muitos.

É um perigo perceber que vê em terra de cegos e arriscar contar-lhes a verdade.

O negociar da verdade

LaTraca1932Não sei de onde vem esse costume de negociar a verdade, de socializar a razão, de repartir diplomaticamente os valores. Radicalidade, nos dias de hoje, é anacrônico, enquanto a autenticidade e a coerência são atacadas pelo pé, num mundo onde se relativiza a moral e ninguém é permitido viver valores autênticos e irrenunciáveis.

Não é incomum ouvir alguém dizer que os dois têm razão, para arbitrar uma discussão. Acontece que poucos têm a humildade de reconhecer o próprio erro e a própria falta de razão, e torna-se até útil e necessário esse repartir e negociar a verdade, até pela virtude da paciência, porque quem tem razão há de se mostrar com o tempo. Virtude da paciência, virtude da tolerância. Não é muito inteligente adiar discussões para a eternidade por não abrir mão da verdade, é mais útil a paz, nesse caso.

Entretanto, esse costume de negociar a verdade não fica só nesses casos particulares e alcança níveis até inaceitáveis, aos quais não se podem abarcar os princípios de paz e utilidade, da paciência e da tolerância. A humanidade, cada vez mais animalesca, adorando o ter, o poder e o prazer, e sem querer abrir mão, em detrimento dos valores evangélicos, dos próprios costumes, quer que a Igreja, sim, se modifique, se adapte ao mundo de hoje. Querem acabar com o celibato dos sacerdotes, querem acabar com a ilicitude do divórcio, querem que a Igreja aceite a relação homoafetiva e até a sacralize pelo casamento, que se abra aos enganos do socialismo e, num grau máximo, que abra mão até da verdade eterna de si que prega para, assim, unir-se a outras religiões até não cristãs.

Acontece que hoje a radicalidade é vista até com maus olhos, tornou-se sinônimo de fundamentalismo, de ausência de racionalidade e de inteligibilidade, quando, ao contrário, a radicalidade é tudo que a Igreja exorta e o Evangelho preceitua, como diz no Apocalipse: “Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.” — Os cristãos autênticos são recriminados e forçados a negociar seus princípios, trocando o bem-estar na sociedade e a boa convivência com os seus valores, tornando-se, forçosamente, por falta ainda de uma conversão verdadeira e radical, no mais verdadeiro de seu significado, incoerentes com eles mesmos e com aquilo que acreditam.

Radical, ao contrário do que se costuma dizer, é aquele que está enraizado, aquele que sabe bem onde pisa e, desse solo fértil da fé, sabe muito bem em quem e onde colocou a sua fé, e daí retira o seu modo de viver. A maior expressão da radicalidade, pois, é Jesus Cristo, que viveu a Verdade que é Ele mesmo e morreu nela e por ela. A radicalidade do cristão é, pois, por consequência, a estatura de Cristo. Assim, do mesmo modo que é chamado a viver e morrer pela fé, o cristão é chamado a amar sem medidas e afastar-se de todo tipo de fanatismo, intolerância e até mesmo do orgulho da própria fé, a se considerar superior aos demais, pois a autenticidade do Evangelho é morrer de amor por toda a humanidade e servi-la como se dela fosse escravo.

Portanto, diferente do que se espera das nossas relações pessoais, quando podemos abrir mão da nossa própria razão, da nossa vivência como cristão e defesa da fé verdadeira, não nos é lícito, de modo algum, negociar. Os valores do Evangelho têm raízes na eternidade que, como uma eterna idade, não se altera. Não podemos deixar o mundo “modificar Deus”, moldando-O, em nome da própria covardia e fraqueza, segundo a sua vontade, mas, em atitude diametralmente oposta, sermos sal do mundo e luz da terra, conforme nos chama Jesus, o que nós repetimos com a boca cheia, como se fosse um título que temos, e não um dever a ser cumprido.

A demolição das consciências

imagemQuem tenha compreendido bem meu artigo “Armas da Liberdade” deve ter percebido também a conclusão implícita a que conduz incontornavelmente: boa parte do esforço moralizante despendido pela “direita religiosa” para sanear uma sociedade corrupta é inútil, já que termina sendo facilmente absorvida pela máquina da “dissonância cognitiva” e usada como instrumento de perdição geral.

Notem bem: moralidade não é uma lista de condutas louváveis e condenáveis, pronta para que o cidadão a obedeça com automatismo de um rato de Pavlov.

Moralidade é consciência, é discernimento pessoal, é busca de uma meta de perfeição que só aos poucos vai se esclarecendo e encontrando seus meios de realização entre as contradições e ambiguidades da vida.

São Tomás de Aquino já ensinava que o problema maior da existência moral não é conhecer a regra geral abstrata, mas fazer a ponte entre unidade da regra e a variedade inesgotável das situações concretas, onde frequentemente somos espremidos entre deveres contraditórios ou nos vemos perdidos na distância entre intenções, meios e resultados.

Lutero — para não dizerem que puxo a brasa para a sardinha católica — insistia em que “esta vida não é a devoção, mas a luta pela conquista da devoção”.

E o santo padre Pio de Pietrelcina: “É melhor afastar-se do mundo pouco a pouco, em vez de tudo de uma vez”.

A grande literatura — a começar pela Bíblia — está repleta de exemplos de conflitos morais angustiantes, mostrando que o caminho do bem só é uma linha reta desde o ponto de vista divino, que tudo abrange num olhar simultâneo. Para nós, que vivemos no tempo e na história, tudo é hesitação, lusco-fusco, tentativa e erro. Só aos poucos, orientada pela graça divina, a luz da experiência vai dissipando a névoa das aparências.

Consciência — especialmente consciência moral — não é um objeto, uma coisa que você possua. É um esforço permanente de integração, a busca da unidade para além e por cima do caos imediato. É unificação do diverso, é resolução de contradições.

Os códigos de conduta consagrados pela sociedade, transmitidos pela educação e pela cultura, não são jamais a solução do problema moral. São quadros de referência, muito amplos e genéricos, que dão apoio à consciência no seu esforço de unificação da conduta individual. Estão para a consciência de cada um como o desenho do edifício está para o trabalho do construtor: dizem por alto qual deve ser a forma final da obra, não como a construção deve ser empreendida em cada uma das suas etapas.

Quando os códigos são vários e contraditórios, é a própria forma final que se torna incongruente e irreconhecível, desgastando as almas em esforços vãos que as levarão a enroscar-se em problemas cada vez mais insolúveis e, em grande número de casos, a desistir de todo esforço moral sério. Muito do relativismo e da amoralidade reinantes não são propriamente crenças ou ideologias. São doenças da alma, adquiridas por esgotamento da inteligência moral.

Em tais circunstâncias, lutar por este ou por aquele princípio moral em particular, sem ter em conta que, na mistura reinante, todos os princípios são bons como combustíveis para manter em funcionamento a engenharia da dissonância cognitiva, pode ser de uma ingenuidade catastrófica. O que é preciso denunciar não é este ou aquele pecado em particular, esta ou aquela forma de imoralidade específica: é o quadro inteiro de uma cultura montada para destruir, na base, a possibilidade mesma da consciência moral. O caso de Tiger Woods, que citei no artigo, é um entre milhares. Escândalos de adultério espoucam a toda hora na mesma mídia que advoga o abortismo, o sexo livre e o gaysismo. A contradição é tão óbvia e constante que nenhum aglomerado de curiosas coincidências poderia jamais explica-la. Ela é uma opção política, a demolição planejada do discernimento moral. Muitas pessoas que se escandalizam com imoralidades específicas não percebem nem mesmo de longe a indústria do escândalo geral e permanente, em que as denúndias de imoralidade se integram utilmente como engrenagens na linha de produção. Ou a luta contra o mal começa pela luta contra a confusão, ou só acaba contribuindo para a confusão entre o bem e o mal.


Olavo de Carvalho. Diário do comércio, 21 de dezembro de 2009. (O mínimo que você precisa para não ser um idiota, pág. 177)








O bonzinho e o outro

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Lá se vão caminhando na calçada dois homenzinhos: um é bonzinho e o outro, não; um é ingênuo e o outro, não; um só vê em si bondade e o outro, não. O bonzinho está indo para o trabalho e o outro está fazendo seus exercícios físicos de “headphones”. Os dois estão a pensar...

O bonzinho diz em sua mente: “meu chefe é tão bom, quer que eu seja um homem esforçado. Pede-me para que trabalhe além do necessário, isso porque precisa de mim, porque sou o melhor funcionário, daqui a pouco eu ganho uma promoção!”.

O outro, por sua vez, é dono de uma empresa. E, enquanto corre, pensa nos problemas com os quais vai lidar quando chegar à sede: “meu Deus do Céu, o que é que eu faço? Tenho de demitir funcionários... será que eles vão arranjar outro emprego? Vou me certificar se os documentos deles estão todos corretos, tudo registrado, porque lá vêm mais processos trabalhistas desses safados que querem enfiar a faca na goela da gente!”.

Vejamos o contrário, se fosse o bonzinho o dono da empresa e o outro o funcionário: 

O bonzinho diz em sua mente: “por que Deus é tão ruim comigo? Por que permite que isso tudo aconteça? Só porque eu sou uma pessoa boa? O que eu fiz pra merecer? Eu sou um homem honesto, trabalhador, mas bonzinho só se dá mal! Qual é a virtude em ser uma pessoa boa? As pessoas só querem se aproveitar da gente! Fui inventar de dar aumento aos meus funcionários, de liberá-los quando precisassem... No que deu? Esses processos trabalhistas que me ferraram! E eu, que depositei minha confiança neles, fui traído! Mentiram para o juiz e eu não tinha nada comprovando! Que droga! Quero morrer! Sou bom demais para este mundo!”.

O outro é um funcionário de uma empresa: “esse meu chefe é um esperto, pena que ele não é mais do que eu! Enquanto me coloca para trabalhar hora extra e não me paga, eu fico caladinho na minha. Se, por um lado, ele estiver precisando de mim, se ele for um cara bom, uma hora ele vai me recompensar. Se, por outro lado, ele estiver só se aproveitando de mim e me pôr para fora, vou lascar um processo nele!”.

E assim é a vida. Quem se acha o bom e, na sua ingenuidade, não se vê capaz de mal nenhum também não o vê nos outros. Mas aquele outro que reconhece em si a capacidade de ser mau, mas que não o é pela boa educação que teve, por misericórdia de Deus, ou por qualquer razão que seja, esse sim, consegue viver e respirar.

O bom vê maldade em tudo menos em si e, por tanta ingenuidade, acaba por cometer pecados gravíssimos sem perceber. Por outro lado, o outro consegue ser mais misericordioso tanto consigo tanto com os outros e, além de ser mais alerta, consegue precaver-se e arrepender-se de muitas maldades que fez e que seria capaz de fazer, porque as enxerga.